
Quem um dia afirmou que o carnaval não é festa dos anjos, mas orgia dos demônios, não conhece nada acerca da alegria, da liberdade e dos anseios do coração. Não é por acaso que milhões de pessoas se reúnem em torno de blocos e agremiações: querem compartilhar vida, sonhos, fantasias... Querem se ver livres das máscaras que sufocam, das angústias que atormentam, do comum desejo que se suprime.
Desde quando o divino é uniforme? Quem criou essa idéia absurda de que Deus só pode ser alcançado através do sofrimento que redime, da dor que eleva e das lágrimas que purificam? Por que o império da escravização institucional e dogmática tem suplantado a espontaneidade?
Essas restrições, no entanto, não se limitam às “festas profanas”. Poucas são as pessoas que têm a oportunidade de assumir a sua orientação sexual sem sofrer os estigmas do preconceito e da repulsa! Como reconhecer a si mesmo como um ser único, dotado de peculiaridades, desejos e sensações, se o mundo sentencia e pune quem atenta contra a “ordem natural das coisas”? É ultrajante que a sociedade não se incomode com os esquemas de traição, desonestidade e futilidade apresentados em reality shows, enquanto um beijo entre homossexuais, demonstração de amor, carinho e afeto, é motivo para polêmicas, escândalos e vedações infundadas.
É vergonhoso que uma mulher não possa escolher, quando guarda dentro de si uma vida completamente inviável, marcada pelas impossibilidades e improbabilidades geradas pela “anencefalia”, se dá continuidade ou não ao período gestacional, já que sofrerá, durante nove meses, as dores físicas e emocionais ocasionadas pela frustração da perda antecipada.
Ainda mais indigesto é que, num Estado Democrático de Direito, a Igreja Católica possa ditar os rumos da evolução das pesquisas com células-tronco, da admissibilidade da eutanásia e até mesmo da utilização de anticoncepcionais e preservativos.
Na verdade, todos esses questionamentos vieram à tona quando eu recordei uma letra de Toquinho, “Escravo da Alegria”, uma das canções mais lindas que já ouvi. Imaginei o sentido poético para uma palavra tão forte e negativa: a escravidão. Escravos da alegria, nunca da religião, da dor, do sofrimento e da paixão. Manter íntima relação com a vida, sem esconder de nós mesmos e do mundo aquilo que nos move e que, no fundo, sempre desejamos: a felicidade, ainda que imperfeita.
Escravo da Alegria
Toquinho
Composição: Mutinho e Toquinho
E eu que andava nessa escuridão
De repente foi me acontecer
Me roubou o sono e a solidão
Me mostrou o que eu temia ver
Sem pedir licença nem perdão
Veio louca pra me enlouquecer
Vou dormir querendo despertar
Pra depois de novo conviver
Com essa luz que veio me habitar
Com esse fogo que me faz arder
Me dá medo e vem me encorajar
Fatalmente me fará sofrer
Ando escravo da alegria
E hoje em dia, minha gente, isso não é normal
Se o amor é fantasia
Eu me encontro ultimamente em pleno carnaval