sábado, 21 de maio de 2011

A Educação está REPROVADA


Em audiência pública realizada no Rio Grande do Norte, a professora Amanda Gurgel expôs com coerência, coragem e absoluta propriedade todo o sofrimento e todas as privações que têm acometido os professores, especialmente da rede pública de ensino, em todo o Brasil. A campanha por melhores condições de trabalho para os profissionais da educação já está em andamento e tem como slogan a frase "Com a saúde dos professores em recuperação, a educação está REPROVADA". Em Pernambuco, o governo Eduardo Campos não tem se sobressaído, pois não apresenta qualquer diferencial em relação aos outros Estados da Federação. O salário dos professores ainda é um dos piores do país e  o comprometimento da Secretaria de Educação com o desenvolvimento do ensino e o efetivo atendimento às necessidades do professor é vertiginosamente simplório e insuficiente. Quantos profissionais, como bem destacou a professora Amanda Gurgel, estão há mais de 20 anos esperando que a Educação seja tratada como prioridade no país? Os representantes do governo pedem paciência e flexibilidade, mas o que desejam, na verdade, é acomodação e covardia. E isso os professores (e toda a sociedade) não podem oferecer!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ensaio sobre a cegueira



"Só em um mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são." Com base nessa sentença, José Saramago escreveria uma de suas obras mais geniais e inquietantes: Ensaio sobre a Cegueira.
Utilizando palavras, situações e ambientes aterradores, o escritor conseguiu sintetizar em pouco mais de 300 páginas toda a complexidade e a decadência do espírito humano.
Ao ser acometido por uma espécie de cegueira branca, aparentemente contagiosa, um grupo composto por pessoas absolutamente estranhas entre si é obrigado pelo Governo a permanecer em um hospício abandonado, sob a vigilância constante do exército, até que a cura para o mal repentino seja descoberta.
As ordens emitidas pelos soldados armados, através de um auto falante, são muito claras: nenhuma ajuda humanitária seria enviada ao interior do prédio; em caso de conflito interno, o exército não interviria; ninguém poderia abandonar o local, sob pena de ser sumariamente assassinado.
Pequenos conflitos por alimentos, ordem e liderança marcam o início da narrativa e são gradativamente acentuados pela chegada de numerosos portadores da "cegueira branca", que travam uma verdadeira luta interna pelo poder.
Saramago registrou magistralmente o que o tormento, as necessidades, a opressão, a impotência, o medo e, principalmente, a ausência de observadores podem desencadear no espírito humano. Somos aquilo que fazemos quando ninguém nos observa, quando não podemos ser descobertos e os sentidos não alcançam as nossas fragilidades, os nossos instintos e as nossas mais cruéis perspectivas. Ninguém é bom, como o próprio Saramago diria ao justificar sua obra, e é preciso coragem para admitir isso. 
Entretanto, eu vislumbro na obra de Saramago muitos exemplos de como o espírito humano pode ser íntegro, generoso e fraterno, pois o próprio autor descreve situações em que a miséria e a solidão motivam suas personagens a superarem suas insuficiências e egoísmos. E de como a essência de cada indivíduo ultrapassa o liame superficial das convenções. É o caso da prostituta ("a moça dos óculos escuros"), que, ao retornar para casa depois do longo período de confinamento, não encontra os pais:

"A rapariga dos oculos escuros – “Mãezinha, paizinho…Não está ninguém, disse a rapariga dos óculos escuros, e desatou-se a chorar encostada à porta…
Não tivéssemos nós aprendido o suficiente do complicado que é o espírito humano e estranharíamos que queira tanto a seus pais, ao ponto destas demonstrações de dor, uma rapariga de costumes tão livres…”
"Esta sincera preocupação mostra como são afinal infundados os preconceitos dos que negam a possibilidade de existência de sentimentos fortes, incluindo o sentimento filial, nos casos, infelizmente abundantes, de comportamentos irregulares, mormente no plano da moralidade pública." (José Saramago in Ensaio sobre a Cegueira).

O autor também nos convonca à "responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". Fala-nos, portanto, sobre ética, comportamento e integridade; sobre tudo o que devemos preservar e ponderar, mesmo sabendo que os olhos alheios não nos alcançam e não nos sentenciam.  


domingo, 20 de março de 2011

Sonata ao Luar e Dueto dos Gatos

             Algumas pessoas dedicam suas vidas e toda sua sensibilidade à música. É assim que nos encantam: sentem e nos fazem sentir a poesia que identificam nas situações mais belas e simples. Ao ouvirmos o intérprete, vivenciamos todos os significados de suas canções, que podem ou não envolver os nossos sentimentos. Quando esse momento mágico acontece, é como se almas antes estranhas se fundissem sob a linguagem universal da música, que não precisa sequer fazer sentido ou transmitir mensagens concretas para nos alcançar.
             Foi assim que me senti em relação ao “Dueto dos Gatos”, obra atribuída ao compositor italiano Gioacchino Rossini. A música é algo tão essencial, tão admirável e tão absolutamente inexplicável que só mesmo as nossas lágrimas, ou o nosso silêncio, são capazes de traduzir o que uma infinidade de palavras não conseguiriam explicar.
             Já fizeram parte desse dueto intérpretes como Montserrat Caballé e Concha Velasco, mas a pureza das vozes, do sorriso e do encanto desses dois meninos não conseguiu superação.
            Aliada ao vídeo, deixo aqui essa breve história, que descreve a criação da Sonata ao Luar (Moonlight Sonata) de Beethoven, muito mais adequada do que as minhas palavras para ilustrar essa leveza da inspiração humana, que nos brinda com obras geniais.


"Beethoven vivia um desses dias tristes, sem brilho e sem luz. Estava muito abatido pelo falecimento de um príncipe da Alemanha, que era como um pai para ele...
O jovem compositor sofria de grande carência afectiva. O pai era um alcoólatra contumaz e o agredia fisicamente. Faleceu na rua, por causa do alcoolismo... Sua mãe morreu muito jovem. Seus irmãos biológicos nunca o ajudaram em nada, e, some-se a tudo isto, o fato de sua doença agravar-se. Sintomas de surdez, começavam a perturbá-lo, ao ponto de deixá-lo nervoso e irritado...
Beethoven somente podia escutar usando uma espécie de trombone acústico no ouvido. Ele carregava sempre consigo uma tábua ou um caderno, para que as pessoas escrevessem suas idéias e pudessem se comunicar, mas elas não tinham paciência para isto, nem para ler seus lábios...
Notando que ninguém o entendia, nem o queriam ajudar, Bethoven se retraiu e se isolou. Por isso conquistou a fama de misantropo. Foi por todas essas razões, que o compositor caiu em profunda depressão. Chegou a redigir um testamento, dizendo que iria se suicidar...
Mas como nenhum filho de Deus está esquecido, vem a ajuda espiritual, através de uma moça cega, que morava na mesma pensão pobre, para onde Beethoven havia se mudado e lhe fala quase gritando: "Eu daria tudo para enxergar uma Noite de Luar" Ao ouvi-la, Beethoven se emociona até as lágrimas. Afinal, ele podia ver! Ele podia escrever sua arte nas pautas...
A vontade de viver volta-lhe renovada e ele compõe uma das músicas mais belas da humanidade: "Sonata ao Luar" No seu tema, a melodia imita os passos vagarosos de algumas pessoas, possivelmente, os dele e os dos outros, que levavam o caixão mortuário do príncipe, seu protector...
Olhando para o céu prateado de luar, e lembrando da moça cega, como a perguntar o porquê da morte daquele mecenas tão querido, ele se deixa mergulhar num momento de profunda meditação transcendental...
Alguns estudiosos de música dizem que as três notas que se repetem, insistentemente, no tema principal do 1º movimento da Sonata, são as três sílabas da palavra "why"? ou outra palavra sinônima, em alemão...
Anos depois de ter superado o sofrimento, viria o incomparável Hino à Alegria, da 9ª sinfonia, que coroa a missão desse notável compositor, já totalmente surdo. Hino à Alegria expressa a sua gratidão à vida e a Deus, por não haver se suicidado...
Tudo graças àquela moça cega, que lhe inspirou o desejo de traduzir, em notas musicais, uma noite de luar...

Usando sua sensibilidade, Beethoven retratou, através da melodia, a beleza de uma noite banhada pelas claridades da lua, para alguém que não podia ver com os olhos físicos. "

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Meu País


Em razão das dificuldades cotidianas, não tenho encontrado muito tempo para escrever. No entanto, improvisei um vídeo ilustrativo, com uma canção que já conhecia e que redescobri por acaso. Ainda acredito que esse país pode crescer e, mesmo achando que nós não temos opções muito gratas no dia 31 de outubro, recuso-me a retroceder 500 anos e atirar ao vazio as conquistas sociais que o Brasil tem vivenciado.




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sábado, 21 de novembro de 2009

Dom Ariano


Ariano Suassuna é aquele que domina a arte de entrelaçar uma gargalhada estridente à melancolia delicada. Somos contemporâneos de um dos maiores escritores brasileiros, universal em sua luta pela valorização da cultura popular.


Quixotesco porque se insurge, incansavelmente, contra a massificação cultural e a banalização da arte. Por vezes, parece erguer suas bandeiras contra intervenções inevitáveis, provocadas pela ingerência frenética de valores globalizados. Ufanista para alguns, um gênio para outros tantos, a verdade é que Ariano Suassuna consegue alcançar uma multiplicidade formidável de gerações, defendendo a preservação da cultura popular ante a importação de gêneros literários e musicais que tolhem e pulverizam as possibilidades de desenvolvimento de uma identidade nacional.


Em prosa, teatro e poesia, Ariano teceu linhas que contêm em sua essência o que há de mais puro e singelo na cultura regional, produzindo obras em pé de igualdade com Molière ou Shakespeare. Exemplos como "O Auto da Compadecida", "Uma mulher vestida de sol" e o ponto máximo sua criação, "O Romance da Pedra do Reino", unem literatura popular e erudita de forma magistral, provando que são partes distintas de uma mesma unidade, complementares em sua riqueza.


Um homem que conseguiu desvendar com profundidade o Brasil, sem julgar necessário conhecê-lo através de pontos de vista externos, improvisados... Torná-lo imortal ainda em vida significa reconhecer que as suas bandeiras devem ser erguidas por todo o povo brasileiro, consciente de que o que vem de fora deve complementar, não substituir; enriquecer, não alienar.

domingo, 15 de novembro de 2009






Não existem "meninos de rua", existem crianças em situação de rua. Se, levianamente, afirmamos que são "de rua", coadunamos com a ideia de que elas pertencem e sempre pertencerão ao esquecimento. Corroboramos, implicitamente, com a imagem de uma criança em situação natural, em situação aceitável, em situação inevitável de rua.


Não existem "meninos de rua", existem crianças em situação de rua. Se, levianamente, afirmamos que são "de rua", admitimos que o seu coração, o seu sorriso e a sua essência pertencem e sempre pertencerão ao abandono. Aceitamos que as arbitrariedades cometidas contra a infância estão muito além do nosso âmbito de responsabilidade, de comprometimento, de cuidado. Alimentamos a ilusão de que o seu sofrimento não nos alcança e, definitivamente, não nos sentencia.


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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Consumo, logo, existo.


Pensando sobre a liberdade, em sentido amplo, percebo que ela é realmente um sonho de difícil realização. Em primeiro lugar, porque ansiamos ser livres, mas não nos dispomos a libertar. Amarras são sempre atraentes, contanto que não nos cortem e que não nos machuquem. Além disso, a liberdade potencializa a responsabilidade e, se a alcançamos, assumimos integralmente os riscos que as nossas escolhas acarretam.
Eis a grande questão: nosso comportamento é livre ou condicionado? O consumo massificado de gêneros alimentícios Mc Donald's em favelas cariocas pode ser considerado um ato de liberdade? O envolvimento de crianças e adolescentes com o tráfico de drogas consubstancia, ainda que de forma mínima, exemplo de liberdade de escolha?
Sartre estava certo ao defender que o homem é um ser condenado à liberdade. No entanto, as Instituições estão prontas para absolvê-lo a qualquer tempo, oferecendo como salvo conduto o fanatismo religioso (que não deve ser confundido com a fé), o consumismo ou o pragmatismo exacerbado, princípios basilares de sociedades em decadência. Trata-se de um raciocínio muito simples, originalmente desenvolvido por Parmênides e perfeitamente aplicável na contemporaneidade: SER significa TER; NÃO SER significa NÃO TER. Logo, se eu não tenho o mais novo modelo de automóvel ou celular em circulação no mercado, ou não adquiro as melhores roupas e utensílios, eu não sou. Para, finalmente, ser, posso optar entre três caminhos: 1) o da resignação, dando graças a um ser superior pelo pouco que tenho e esperando as recompensas da eternidade; 2) o da violência, retirando, coercitivamente, dos outros os elementos necessários para a minha afirmação como SER; 3) o do sonho, esperando que, através de muito trabalho e esforço contínuo, seja possível adquirir tudo aquilo o que a propaganda oferece como meio de auto-afirmação. À primeira vista, a terceira opção pode parecer a mais sensata, e é até mesmo bastante comum (não é à toa que os cursos preparatórios para concursos públicos estão abarrotados). Entenda-se: essa não é uma crítica aos processos seletivos, nem às pessoas que desejam obter um padrão de vida mais confortável e satisfatório, mas tão somente à finalidade máxima de suas expectativas, que é o seu bem-estar individual e a sua estabilidade financeira, não o interesse da coletividade. A morosidade do serviço público e a ausência de ética na Administração são exemplos latentes dessa inversão de valores.
Nesse ponto, retomo o questionamento inicial: nosso comportamento é livre ou condicionado? Mesmo sem ter respostas para essa pergunta, aparentemente tão simples, eu chego à conclusão de que a liberdade de pensamento ainda é o ponto culminante de nossa expressão como indíviduos e como seres em constante atividade reflexiva. Dentre os três caminhos mencionados acima, que não são, absolutamente, taxativos, apenas a mente humana, em sua complexidade, pode defini-los, moldá-los e, definitivamente, reinventá-los.