domingo, 15 de novembro de 2009






Não existem "meninos de rua", existem crianças em situação de rua. Se, levianamente, afirmamos que são "de rua", coadunamos com a ideia de que elas pertencem e sempre pertencerão ao esquecimento. Corroboramos, implicitamente, com a imagem de uma criança em situação natural, em situação aceitável, em situação inevitável de rua.

Não existem "meninos de rua", existem crianças em situação de rua. Se, levianamente, afirmamos que são "de rua", admitimos que o seu coração, o seu sorriso e a sua essência pertencem e sempre pertencerão ao abandono. Aceitamos que as arbitrariedades cometidas contra a infância estão muito além do nosso âmbito de responsabilidade, de comprometimento, de cuidado. Alimentamos a ilusão de que o seu sofrimento não nos alcança e, definitivamente, não nos sentencia.


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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Consumo, logo, existo.


Pensando sobre a liberdade, em sentido amplo, percebo que ela é realmente um sonho de difícil realização. Em primeiro lugar, porque ansiamos ser livres, mas não nos dispomos a libertar. Amarras são sempre atraentes, contanto que não nos cortem e que não nos machuquem. Além disso, a liberdade potencializa a responsabilidade e, se a alcançamos, assumimos integralmente os riscos que as nossas escolhas acarretam.

Eis a grande questão: nosso comportamento é livre ou condicionado? O consumo massificado de gêneros alimentícios Mc Donald's em favelas cariocas pode ser considerado um ato de liberdade? O envolvimento de crianças e adolescentes com o tráfico de drogas consubstancia, ainda que de forma mínima, exemplo de liberdade de escolha?

Sartre estava certo ao defender que o homem é um ser condenado à liberdade. No entanto, as Instituições estão prontas para absolvê-lo a qualquer tempo, oferecendo como salvo conduto o fanatismo religioso (que não deve ser confundido com a fé), o consumismo ou o pragmatismo exacerbado, princípios basilares de sociedades em decadência. Trata-se de um raciocínio muito simples, originalmente desenvolvido por Parmênides e perfeitamente aplicável na contemporaneidade: SER significa TER; NÃO SER significa NÃO TER. Logo, se eu não tenho o mais novo modelo de automóvel ou celular em circulação no mercado, ou não adquiro as melhores roupas e utensílios, eu não sou. Para, finalmente, ser, posso optar entre três caminhos: 1) o da resignação, dando graças a um ser superior pelo pouco que tenho e esperando as recompensas da eternidade; 2) o da violência, retirando, coercitivamente, dos outros os elementos necessários para a minha afirmação como SER; 3) o do sonho, esperando que, através de muito trabalho e esforço contínuo, seja possível adquirir tudo aquilo o que a propaganda oferece como meio de auto-afirmação. À primeira vista, a terceira opção pode parecer a mais sensata, e é até mesmo bastante comum (não é à toa que os cursos preparatórios para concursos públicos estão abarrotados). Entenda-se: essa não é uma crítica aos processos seletivos, nem às pessoas que desejam obter um padrão de vida mais confortável e satisfatório, mas tão somente à finalidade máxima de suas expectativas, que é o seu bem-estar individual e a sua estabilidade financeira, não o interesse da coletividade. A morosidade do serviço público e a ausência de ética na Administração são exemplos latentes dessa inversão de valores.

Nesse ponto, retomo o questionamento inicial: nosso comportamento é livre ou condicionado? Mesmo sem ter respostas para essa pergunta, aparentemente tão simples, eu chego à conclusão de que a liberdade de pensamento ainda é o ponto culminante de nossa expressão como indíviduos e como seres em constante atividade reflexiva. Dentre os três caminhos mencionados acima, que não são, absolutamente, taxativos, apenas a mente humana, em sua complexidade, pode defini-los, moldá-los e, definitivamente, reinventá-los.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Lugar de criança é na Infância...



Nas últimas semanas, um fato que ultrapassou os limites do entendimento, da covardia e da desumanidade provocou reações de repúdio, além de um sentimento incontido de revolta e vergonha, em grande parte da população pernambucana: a gravidez de uma menina de 9 anos, que teria sido estuprada pelo padrasto. Não há outra forma de mencionar essa quimera, não há qualquer eufemismo ou disfarce a ser usado para tratar de um assunto tão infame quanto controverso. Para isso, é preciso que reconheçamos a decadência dos nossos valores e das nossas instituições (dentre elas, a mais preciosa: a família). É necessário que esqueçamos pudores e afirmemos: a violência doméstica é uma constante e o Estado, arraigado pela corrupção, não tem despendido força suficiente para combatê-la. É imprescindível percebermos (ou, finalmente, entendermos) que a prostituição infantil não é história em quadrinhos: ela já tolheu, já maltratou, já humilhou e já pulverizou a inocência, pois a mácula impune de uma única criança constitue crime, ouso dizer, contra toda a humanidade.

Entretanto, o foco de uma discussão que poderia ser séria e responsável foi transferido, de forma quixotesca, para o âmbito da religião e do preconceito. O arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, decidiu eleger a equipe médica selecionada para interromper a gravidez da menina (que não tem estrutura física para suportar dois bebês, já que espera gêmeos, nem maturidade para ser mãe) à categoria de "moinhos de vento", ameaçando médicos e enfermeiros de excomunhão e empregando toda a sua influência para garantir o fiel cumprimento do 6º dos Dez Mandamentos: "Não Matarás". Alguém esqueceu de ensinar ao arcebispo um dos mandamentos mais importantes da lei da vida: "Lugar de criança é na Infância".

A comunidade deve ser instruída a relatar às autoridades policiais os casos de abuso e de exploração infantil; os professores, diretamente envolvidos com as vivências e o cotidiano da criança e do adolescente, devem permanecer atentos ao comportamento desenvolvido pelo aluno durante o período de atividades escolares; o Estado deve investir em políticas públicas de educação, instrução e combate à violência doméstica, reprimindo a conduta delitiva, oferecendo suporte à família, e, através de sua força coercitiva, coibindo a grande indústria de exploração sexual que agride a infância e fere os princípios do Estado Democrático de Direito.

Fato incontroverso é que a exploração sexual infanto-juvenil efetivamente existe, estendendo-se desde as práticas abusivas cometidas no interior do ambiente familiar até os absurdos expostos em praças públicas, grandes avenidas e albergues mantidos por "cafetinas". Ponto de interrogação é a importância atribuída a essa realidade, que é negligenciada pelo Poder Público (que se omite), pela sociedade (que não reivindica), pela Igreja (que desvirtua a problemática), por mim (que, no quebra-cabeça do conformismo, sou peça fundamental).

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Escravos da Alegria




Quem um dia afirmou que o carnaval não é festa dos anjos, mas orgia dos demônios, não conhece nada acerca da alegria, da liberdade e dos anseios do coração. Não é por acaso que milhões de pessoas se reúnem em torno de blocos e agremiações: querem compartilhar vida, sonhos, fantasias... Querem se ver livres das máscaras que sufocam, das angústias que atormentam, do comum desejo que se suprime.

Desde quando o divino é uniforme? Quem criou essa idéia absurda de que Deus só pode ser alcançado através do sofrimento que redime, da dor que eleva e das lágrimas que purificam? Por que o império da escravização institucional e dogmática tem suplantado a espontaneidade?

Essas restrições, no entanto, não se limitam às “festas profanas”. Poucas são as pessoas que têm a oportunidade de assumir a sua orientação sexual sem sofrer os estigmas do preconceito e da repulsa! Como reconhecer a si mesmo como um ser único, dotado de peculiaridades, desejos e sensações, se o mundo sentencia e pune quem atenta contra a “ordem natural das coisas”? É ultrajante que a sociedade não se incomode com os esquemas de traição, desonestidade e futilidade apresentados em reality shows, enquanto um beijo entre homossexuais, demonstração de amor, carinho e afeto, é motivo para polêmicas, escândalos e vedações infundadas.

É vergonhoso que uma mulher não possa escolher, quando guarda dentro de si uma vida completamente inviável, marcada pelas impossibilidades e improbabilidades geradas pela “anencefalia”, se dá continuidade ou não ao período gestacional, já que sofrerá, durante nove meses, as dores físicas e emocionais ocasionadas pela frustração da perda antecipada.

Ainda mais indigesto é que, num Estado Democrático de Direito, a Igreja Católica possa ditar os rumos da evolução das pesquisas com células-tronco, da admissibilidade da eutanásia e até mesmo da utilização de anticoncepcionais e preservativos.

Na verdade, todos esses questionamentos vieram à tona quando eu recordei uma letra de Toquinho, “Escravo da Alegria”, uma das canções mais lindas que já ouvi. Imaginei o sentido poético para uma palavra tão forte e negativa: a escravidão. Escravos da alegria, nunca da religião, da dor, do sofrimento e da paixão. Manter íntima relação com a vida, sem esconder de nós mesmos e do mundo aquilo que nos move e que, no fundo, sempre desejamos: a felicidade, ainda que imperfeita.



Escravo da Alegria
Toquinho
Composição: Mutinho e Toquinho


E eu que andava nessa escuridão
De repente foi me acontecer
Me roubou o sono e a solidão
Me mostrou o que eu temia ver
Sem pedir licença nem perdão
Veio louca pra me enlouquecer
Vou dormir querendo despertar
Pra depois de novo conviver
Com essa luz que veio me habitar
Com esse fogo que me faz arder
Me dá medo e vem me encorajar
Fatalmente me fará sofrer
Ando escravo da alegria
E hoje em dia, minha gente, isso não é normal
Se o amor é fantasia
Eu me encontro ultimamente em pleno carnaval

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Cinema Paradiso



Quando rememoramos alguns instantes ou períodos que marcaram as nossas vidas, tendemos a delinear com traços de poesia tudo aquilo que o coração transporta de forma mais leve e amena. O aroma suave de uma boa lembrança, o conforto da mesa posta para a ceia de natal, o quintal espaçoso em que desenhávamos as nossas fantasias; tudo tão alegre, tão límpido, tão bom...

Não me canso, portanto, de lembrar o quanto a música, o cinema, os livros e a arte em sua amplitude são indispensáveis à expressividade e à compreensão dos nossos sentimentos. A cultura sem definições, sem limites, sem parâmetros ou regras que façam distinções entre o que é necessariamente bom ou ruim. Os autos populares, os cordéis, os folhetos, os símbolos ou até mesmo algumas palavras rabiscadas na areia, tudo o que remete à essência do ser humano, que não prescinde de externar e imortalizar a forma como sente o mundo.

Dirigido pelo italiano Giuseppe Tornatore, "Cinema Paradiso" é mais um filme que alcança a nossa sensibilidade. Trata-se de uma verdadeira declaração de amor à vida, feita através das lembranças de um cineasta (Salvatore di Vita - o Toto) que reconhece na infância, na terra natal e num grande amigo as bases do seu crescimento profissional e, principalmente, pessoal.

Unidos pela paixão que nutrem pelo cinema e pelos seus clássicos, Alfredo e Toto (ainda criança) iniciam uma amizade transitoriamente marcada por pequenos conflitos, mas que se torna tão grandiosa quanto eterna. À medida que acompanhamos a afetividade contínua entre as personagens, desfrutamos de cenas lindíssimas e da percepção de que a sociedade evolui através da arte, sob aspectos positivos e negativos.

Abaixo, uma das cenas mais emocionantes do filme, que nos brinda com a elegância do seu romantismo e com a composição mais-que-perfeita do maestro italiano Ennio Morricone.


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sábado, 29 de novembro de 2008

1968



Sob todas as dúvidas e questionamentos que permeiam o reingresso de um novo ano (que de tão novo e comemorado parece antigo), começo a pensar em um breve período verdadeiramente digno de ser aclamado e definido como inovador: 1968.
Não é segredo que essa década faz ressoar em nossa memória angústia, silêncio e sombra, esta última das mais severas, como mistificaria Carrero. Isso porque o retrocesso, seja qual for a cor de sua roupagem, é sempre visto em preto e branco, com a agravante de conter em si todos os contornos e as lamentáveis lembranças da opressão e do medo. Acontece que, no mesmo período, não só o Brasil, mas todo o mundo vivenciava o seu “vazio fértil”. O preconceito racial, a intolerância religiosa, a tecnologia a serviço da miséria e da fome, o machismo, a arbitrariedade e a violência eram valores culturais globalizados e solidariamente partilhados entre todas as nações.
Fundamental, entretanto, não é o terror fomentado através da força, mas a coragem para enfrentá-lo. Insurgir-se contra a clarividente imagem da onipotência, num momento inicial, pode parecer loucura, mas constituiu a única alternativa daqueles que ansiavam por uma “nova ordem mundial”. A questão é que a única ordem anunciada era a desordem proposital e reivindicativa. É proibido proibir, essa seria a expressão-chave, a tradução de que a liberdade não se limitava a uma mera ramificação da utopia. A imaginação no poder!, anunciavam estudantes parisienses, cujos protestos contaram com a profunda adesão da classe operária.
Quatro décadas depois, exatamente no ano de 2008, deparamo-nos com a mesma problemática: o que esperamos da posteridade? Se nossos desejos, expectativas e ideologias estão expostos em vitrines de lojas como se fossem mercadorias negociáveis a preços irrisórios e cada vez mais flexíveis.

domingo, 2 de novembro de 2008

"O maior destes é o amor"



Gostaria de esquecer os bons costumes, a religiosidade e até mesmo o moralismo para falar simplesmente sobre o amor. Isso, entretanto, não é o bastante. Porque o amor que me interessa no momento é aquele que levanta a voz, que se impõe e que não conhece os maus agouros do egoísmo. O amor permeado pela amplitude: alcança não só os próprios afetos, mas tudo aquilo que lhe é estranho e incompreensível.

Não se trata de um sentimento estéril, infértil ou senil, pois se expande através de uma multiplicidade de gêneros e de espaços. Esse amor conjuga a si mesmo e não admite intervenções, afinal, já conhece a sua essência e já aprendeu a ser completo. Poderia, para isso, citar uma infinidade de nomes, como o de Chico Xavier, de Betinho ou de Gandhi. Entretanto, escolhi aquela cujas palavras e a grandeza (apesar de estatura física tão discreta) demonstraram tanta força a ponto de desafiar os padrões mais egocêntricos da humanidade: Madre Teresa de Calcutá.

Religiosa macedônia, naturalizada indiana, Agnes Gonxha Bojaxhiu decidiu dedicar sua vida à vocação religiosa desde a infância. Esse ideal se faria constante durante toda a sua existência, que nem por isso deixou de ser permeada por contradições e silenciosos conflitos espirituais. Tal dificuldade para reafirmar a própria fé e união à Cristo tornou-se fator de discussão a partir da divulgação de cartas pessoais em que Teresa (nome que adotou ao ingressar no colégio das Irmãs de Calcutá) confidenciava suas dúvidas acerca da existência de Deus. Fragmentos como "Onde está minha fé, aqui no mais profundo não há nada, Meu Deus, que dolorosa é esta pena desconhecida. Não tenho fé." ou "Peço, me agarro, quero, e não há Ninguém para contestar - Ninguém a quem me apegar, não, Ninguém. Sozinha." demonstraram que estava acometida por um vazio espiritual aterrador e por dúvidas que colocavam à prova a profissão de fé que havia escolhido para definir o seu caminho.
Madre Teresa de Calcutá dedicou toda a sua vida ao próximo. Em nenhum instante ousou duvidar do amor que sentia pelas crianças, especialmente aquelas subjugadas pelo crivo da ambição e da ganância. Despertou mundialmente a consciência de que a ajuda mútua, a solidariedade e a doação de si mesmo são essenciais e indispensáveis à construção de uma realidade mais justa e igualitária.
"Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor."